Resistência

Antes que a escuridão batesse à porta, examinou bem as trancas. As janelas já estavam bem fechadas. Por ali não entraria.
O portão, já revestido pelo escuro da rua, estava receoso, tentando acreditar na força enferrujada de um velho cadeado. Mesmo assim, era quase certo, por ali não passaria.
As portas fechadas dos bares ilustravam o quão preocupante e nefasto era o momento.
As escolas foram todas fechadas para que ali não entrasse. Aquilo jamais deveria apoderar-se daquelas mentes inocentes.
"Na igreja ele não ousaria", pensou-se. Mas a fé nessa ideia era vã e as portas do templo também foram trancadas.
As luzes dos postes, há muito tempo apagadas, iam colaborando com o breu. Pela escuridão seria difícil aquilo encontrar qualquer lugar para adentrar.
A emergência estava às escuras. Ninguém curou ou foi curado.
Nenhum carro imprimiu a velocidade na noite. Tudo estava propenso ao desarme. Seria difícil aquilo transpor uma barreira de ideais. 
O andarilho ainda teve a audácia inconsciente em ficar perambulando naquela agonizante solidão até o exato instante em que, cambaleante, tropeçou na própria insignificância, ficando imóvel no chão. O domínio daquilo diante das mazelas humanas era evidente.
Até mesmo a meretriz trancou toda a casa, apagou as luzes e foi deitar-se só. Com o espartilho prazer dependurado num varal de pecados, mais nada ali poderia atrair aquilo.
Por fim, a delegacia. Esta sim estava escancarada. Mas era certo que ali não entraria. Não por enquanto.
Sem acesso a nenhum lugar, aquilo não se sustentaria. Acabaria subtraído no mesmo golpe.
Mas alguém dormiu deixando a TV ligada. E num descuido decisivo, aquilo conseguiu entrar através de um dissimulado pronunciamento que tentava, a qualquer custo, fazer o teatro continuar.
Num protesto torpor, entregue ao justo sono, não percebeu que a televisão continuaria ligada madrugada a fora.
A única inconsciente certeza era que, pelo menos em seus sonhos, aquilo jamais entraria...