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Mostrando postagens de Janeiro, 2013

Catador de palavras

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Estava sentindo-se fraco. Saúde frágil. O velho escritor estava por semanas reunindo coisas pra jogar fora. Escritos há muito guardados. Inéditos amarelados desde o tempo em que colaborava com um jornal local. Castrou-se com o tempo. Isolou-se profundamente em meio a ruína que se tornou sua casa. Pensou em queimar tudo. Tinha medo das labaredas que poderiam formar. Apenas amassou-os rasgando cada folha mandando tudo para o lixo. Tornou-se egoísta e decidiu que não deveria mais passar adiante aquela sua literatura que a muitos encantou. Seria mais poético que o esquecimento tomasse conta de tudo aquilo que pudesse lembrá-lo. Cada vírgula. Passados alguns dias então se deu a morte do velho escritor, com poucas pessoas acompanhando o féretro. Um ostracismo querido e desenhado de forma triste. Semanas antes, um catador de materiais recicláveis havia encontrado no lixo, jogado pelo escritor, coisas interessantes. As folhas rasgadas inclusive. Muitas delas. Ele há algum tempo estava pass…

O amor no caminho das trevas

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Ele era tido como um “bicho grilo”. Figura conhecida. Perambulava pelo centro da cidade recolhendo bitas de cigarros e revirando as latas de lixo. Sempre que passava em frente a uma casa de decorações, entrava devagar e disparava sempre a mesma pergunta ao vendedor: -O senhor por acaso tem lanterna?. Era notório de que ele não podia comprar uma. Ele perguntava por aquelas lanternas antigas, daquelas que tinham um lugar especifico dentro para se colocar uma vela. Uma espécie de candeeiro. A resposta dada pelo vendedor era sempre a mesma: Um não categórico, o qual ele ouvia em silêncio e se retirava sem mais delongas. Era quase todo dia assim. Deu-se um motivo que foi capaz de fazer aquele vendedor virar gerente da loja de decorações. Em seu lugar foi contratada uma moça que logo no seu primeiro dia foi abordada pelo “louco” lhe desferindo a antiga pergunta: -A senhora por acaso vende lanterna? Tal qual a inocência da jovem vendedora, a resposta veio naturalmente na forma de outra pergun…

Estêvão

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Menino cabeça de vento:
Só pensa em soltar pipa.
Cambaleando de sono,
vai tropeçar em sonhos.
Se enroscar nas linhas/nuvens
dessa liberdade colorida...

Desencontros

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Maurílio Américo de Carvalho, meu amigo Maurilhão, faleceu na noite de um domingo de carnaval, a uns dez anos atrás, de uma maneira improvável como já aconteceu com todos os boêmios que conheci. Foi alguns dias após o seu aniversário. Mais improvável porém que a épica ressaca daquela segunda-feira de folia, onde minha percepção da realidade não queria acreditar no acontecido. Aquela “dor de cabeça” homérica confundiu meu pensamento. Só passei a acreditar mesmo na ”ida” do Maurílio quando minha Mãe, pela terceira vez naquela tarde, me confirmava seriamente seu desterro. Desci a rua desorientado. Ele encerrava uma amizade ampla, dessas de ir “até o arroz secar”. Incógnito, porém engraçado. Cheio de confusões, mas de um coração imenso. Parceiro de vida, de trabalho, de balcão e de madrugadas. Quantas infindáveis vezes bilhetinhos meus foram capazes de arrumar uma paquera pra ele na noite. Pensando bem agora, deveria ser por isso que ele sempre andava com uma caneta no bolso. Foi assim que o…

A linguagem dos retratos

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Fotografia não é apenas a incidência de luz sobre uma superfície específica. Nem tão pouco a precisão única de aprisionar o momento. Fotografar é ir além que eternizar o estático. É dar liberdade á memória reacendendo a nostalgia. É desvencilhar o instante e fazê-lo se locomover no tempo, o redesenhando numa outra estrutura: a do diálogo atemporal da imagem independente de época. Fotografias sugerem palavras, estimulo primaz de inquietação. Tradução de poses, sorrisos, lugares e pessoas. Imprimem a longevidade dos dias cravando raízes no ontem. Elaboram e mostram a perspicaz habilidade do silêncio que narra o acontecido aos olhos, tidos como as janelas dessa luminosidade contida. É assim que revelam almas. A fotografia, sendo uma espécie de “máquina do tempo”, é capaz de nos deslocar entre o inexorável fazendo do esquecimento algo histórico. Do particular, algo lúdico. Do cotidiano algo épico. Das dedicatórias quase apagadas em seus versos um pedaço real de um momento distante, amarelado…